Desde a Revolução Francesa, quando os grupos se posicionavam fisicamente à direita ou à esquerda da Assembleia Nacional, esses termos passaram a simbolizar visões de mundo, valores e projetos de sociedade distintos. Como lembra Norberto Bobbio, em Direita e Esquerda (1994), a diferença central entre os dois campos está na forma como cada um encara a questão da igualdade: enquanto a esquerda busca ampliá-la, a direita tende a aceitar e preservar diferenças como naturais ou necessárias.
No entanto, ao olharmos para o âmbito municipal, especialmente aqui no litoral paranaense, é necessário reconhecer que essa distinção perde grande parte da sua força prática. A política local lida com problemas imediatos e concretos: falta de infraestrutura, saneamento, educação básica, atendimento em saúde, esporte e cultura comunitária. Essas questões não têm cor ideológica. Como já observava Alexis de Tocqueville em A Democracia na América (1835), a vitalidade democrática nasce sobretudo das instituições locais, pois é nelas que os cidadãos percebem de forma mais direta os efeitos das decisões políticas.
Assim, insistir em travar uma guerra de “direita contra esquerda” dentro do município é desviar o foco daquilo que realmente importa: soluções pragmáticas para problemas reais. A ideologia, nesse contexto, acaba funcionando mais como obstáculo do que como guia.
Infelizmente, muitos atores políticos exploram essa polarização como estratégia de poder. É a velha lógica do “dividir para conquistar”, já descrita por Maquiavel em O Príncipe (1532). Ao acentuar artificialmente a divisão entre grupos, cria-se um ambiente de hostilidade em que a população se fragmenta, enquanto as lideranças que estimulam esse conflito ganham terreno e espaço de manobra.
Cada vez mais, torna-se urgente cultivar uma postura de moderação. Ser moderado não significa ausência de posicionamento, mas sim buscar avaliar cada proposta pelo seu mérito, sem o filtro cego da ideologia. O filósofo John Stuart Mill, em Sobre a Liberdade (1859), defendeu a importância do debate racional e da abertura a diferentes perspectivas como condição fundamental para o progresso. Aplicando isso à esfera municipal, podemos dizer que boas propostas — independentemente de sua origem — devem ser acolhidas, e más propostas — ainda que partam de aliados — precisam ser rejeitadas.
Aqui entra uma distinção necessária: o que é ser de centro e o que é o chamado “Centrão”.
O Centrão, na prática política brasileira, é um agrupamento de partidos que se caracteriza pelo fisiologismo, pela negociação de cargos e vantagens em troca de apoio, muitas vezes à revelia dos interesses coletivos. Sérgio Abranches, em sua teoria do “presidencialismo de coalizão”, já destacava como esse tipo de arranjo compromete a governabilidade em nome da barganha.
Já uma pessoa de centro, em termos filosóficos e políticos, é alguém que recusa os extremos e busca o equilíbrio. É um cidadão ou gestor que não se deixa aprisionar por dogmas e analisa cada questão de forma contextual, procurando sempre o que é melhor para a comunidade.
No litoral do Paraná, onde as necessidades são tão urgentes e visíveis, a população ganha muito mais com políticos equilibrados, centrados e comprometidos com resultados do que com aqueles que tentam importar para o debate local as brigas ideológicas do cenário nacional.
A lição que fica é clara: não devemos ser reféns de rótulos. O desafio municipal é construir políticas públicas eficazes, capazes de melhorar a vida das pessoas. O foco precisa estar no asfalto que falta, na escola que precisa de reparos, no hospital que precisa de médicos, na geração de empregos e no fortalecimento do turismo e da economia regional. Essa é a verdadeira política transformadora, aquela que se faz perto das pessoas e para as pessoas.



